terça-feira, 23 de outubro de 2012

Dra Nise da Silveira, a psiquiatra rebelde...


Encontro entre a Dra Nise e Carl Gustav Jung
 
"Cada um desses indivíduos- esquisofrênicos ou marginais de vários gêneros- possui suas peculiaridades, mas todos têm contato íntimo com as forças naturais, brutas, virgens do inconsciente. Que hajam configurado visões, sonhos, vivências nascidas dessas forças primígenas, eis um dos mistérios maiores da psique humana" (Dra Nise da Silveira).

Dra Nise foi uma mulher a frente do seu tempo e um ser humano dotado de extrema sensibilidade e amor ao próximo. Essa mulher fez da sua vida um sacerdócio, dedicando-se de corpo e alma a causa da saúde mental, certamente é um exemplo e uma inspiração, tanto para mim, quanto para outros profissionais de saúde. Tive honra de estagiar, em 2000,  no Museu de Imagens do Inconsciente (visiste o site), do qual Dra Nise foi idealizadora e fundandora. O Museu está localizado no Engenho de Dentro (RJ), no antigo Hospital Psiquiátrico Pedro II. 
 
Dra Nise da Silveira foi uma psiquiatra que, inconformada com as práticas terapêuticas de sua época (eletrochoque, insulinoterapia, lobotomia e confinamento), falamos da década de 40, inovou criando no Hospital Psiquiátrico Pedro II, a seção de Terapêutica Ocupacional.  O trabalho para fundamentar cientificamente esta nova forma de lidar com os pacientes foi um desafio assumido pela  Dra Nise, e os resultados não demoraram a aparecer, juntamente com o surgimento de um grande volume de produções realizadas pelos pacientes (especialmente pinturas e modelagens), veio a melhora significativas no quadro clínico de vários internos. As imagens que resultaram desse trabalho passaram a intrigar a Dra Nise, esta buscou apoio na teoria junguiana para elucidá-las. lançar um olhar sobre a produção de um paciente era ter acesso a sua psique, coisa quase impossivel de ser feita por outra via, especialmente na esquisofrenia.
 
Dra Nise viu que muitas das imagens produzidas eram formas circulares ou próximas do círculo, símbolo da unidade e da integração e identicas as imagens utilizadas para meditação e representação das divindades das religiões orientais. Ela se perguntou como e porque pessoas psiquicamente cindidas estariam estar produzindo, em profusão, simbolos da unidade? Dra Nise encontrou apoio em Jung que também ficou muito interessado nessas imagens. A psique possui, assim como o corpo, potencial autocurativo, e busca compensar a situação caótica da mente e a dissociação por meio da produção de símbolos, que são pontes entre o mundo da psique e o mundo exterior, ou seja, a realidade objetiva. Este trabalho realizado pela Dra Nise da Silveira acabou introduzindo a psicologia analítica junguiana no Brasil, e entre Jung e Dra Nise inicou-se uma profícua troca de experiências. Jung literalmente mandou a Dra Nise estudar os mitos, sem o conhecimento destes, não seria possivel uma compreensão mais profunda das representações produzidas pelos pacientes. Muitas imagens surgidas no ateliê tinham semelhanças com temas míticos universais, e os autores dos trabalhos, eram em grande parte, pessoas humildes, de classes sociais que não lhes permitiam grande acervo de conhecimento da cultura de outros lugares.
Esse trabalho é um marco para a psiquiatria no mundo, infelizmente mais conhecido e reconhecido no exterior que no Brasil e abriu portas para mudanças significativas na forma de tratamento no campo da saúde mental, certamente um orgulho para todos nós terapeutas e brasileiros. A psicologia junguiana não tem como único objetivo encontrar mitos representados na produção dos pacientes psiquiátricos, o seu interesse maior está em identificar e acompanhar nas produções o processo contínuo de elaboração dos conteúdos psiquicos, visando melhorar a orientação do tratamento para a melhora do paciente.
 
renatabomfim
 

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