segunda-feira, 26 de maio de 2014

Depressão? Busque ajuda!


A depressão é um mal que assola cerca de 121 milhões de pessoas no mundo e já considerado um problema de saúde pública. A complexidade desse mal torna o seu enfrentamento um desafio, especialmente em função da banalização dos seus sintomas e da falta de conhecimento a respeito da doença. Historicamente vemos que o desencantamento e a tristeza presentes na vida humana, como uma sombra. Esse tema foi e continua sendo cantado em verso e prosa pelos escritores, como mostra, por exemplo, o antológico soneto “Castelã da tristeza[1]”, da poetisa portuguesa Florbela Espanca: “Altiva e couraçada de desdém, /Vivo sozinha em meu castelo: a Dor!/ Passa por ele a luz de todo o amor.../ E nunca em meu castelo entrou alguém!”. Na antiguidade Hipócrates (460- 370 a. C.) designou que quatro humores seriam responsáveis por esse mal-estar: a bílis negra, a amarela, o sangue e pituíta. O quarteto responderia pelo equilíbrio humano, sendo o desequilíbrio dessas substâncias, o responsável pelas doenças, entre elas a melancolia cujos principais sintomas eram a tristeza e o medo. Aristóteles (384- 322 a. C.) postulou que a melancolia era inerente ao ser humano, e associou o mal, especialmente, aos artistas. A teoria de Hipócrates vigorou durante a idade média e o Renascimento, apenas foi posta em xeque durante o classicismo, quando a causa da melancolia deixou de ser relacionada às substâncias, e vinculadas a fatores presentes no homem como a amargura, a tristeza e a solidão. Na segunda metade do século XVIII, o médico francês Philippe Pinel (1745- 1826) passou a estudar os fenômenos da melancolia/tristeza, do ponto de vista médico, ou seja, analisando os seus sintomas. O termo melancolia perdeu força e foi sendo substituído. O psiquiatra Emil Kraepeling (1856-1926) direcionou os seus estudos para o que chamou de “psicose maníaco-depressiva”, e desde então a psiquiatria passou a utilizar a palavra depressão ao invés de melancolia. A poetisa portuguesa Florbela Espanca tem um soneto chamado “Neurastenia”, que faz parte da obra Livro de Mágoas, de 1919, e diz:

Sinto hoje a alma cheia de tristeza!
Um sino dobra em mim Ave-Maria!
Lá fora, a chuva, brancas mãos esguias,
Faz na vidraça rendas de Veneza ...

O vento desgrenhado chora e reza
Por alma dos que estão nas agonias!
E flocos de neve, aves brancas, frias,
Batem as asas pela Natureza ...

Chuva ... tenho tristeza! Mas porquê?!
Vento ... tenho saudades! Mas de quê?!
Ó neve que destino triste o nosso!

Ó chuva! Ó vento! Ó neve! Que tortura!
Gritem ao mundo inteiro esta amargura,
Digam isto que sinto que eu não posso!!...

O termo neurastenia foi introduzido pelo neurologista George Beard (1839- 1883), contemporâneo de Kraepeling, ela era considerada uma doença da modernidade, fruto das mudanças sociais impulsionadas pela revolução industrial. A neurastenia tinha como sintoma um cansaço exacerbado, e os fatores desencadeadores da mesma deixaram de ser, preponderantemente, orgânicos, e passaram a ser, também, sociais e culturais.
 Sigmund Freud (1856- 1939), no final do século XIX, construiu categorias e criou uma nomenclatura para termos para designar maus estares vinculados a angústia e ao sofrimento, entre eles depressão, depressão melancólica, melancolia e melancolia cíclica. A mirada freudiana mostra a dificuldade em reduzir um mal multifacetado com uma terminologia única. Mais uma vez o fator social foi priorizado como desencadeador do sofrimento. Essa postura foi contestada por Pierre Janet (1859-1947), psicólogo e médico que defendia que a raiz do mal era orgânica e inata. Os estudos do século XX tiveram como base esses pontos de vista sobre a doença. Na contemporaneidade a depressão é vista como uma doença que possui raízes tanto orgânicas, quanto sociais. O psiquiatra Ricardo Moreno, do Programa de transtorno Afetivos do Instituto de Psiquiatria do Hospital das clínicas (IPQ), afirma que “depressão é uma doença que tem como base uma disfunção química do cérebro, ou seja, os sistemas de neurotransmissão são comprometidos”. A tristeza, a angústia, a melancolia, são fatores que associados à herança genética, formam o quadro da depressão. Segundo esse estudioso, nos 40% dos pacientes com depressão há fatores genéticos envolvidos, e os fatores sociais não são considerados a causa da doença, mas, o seu desencadeador. Muitos estudiosos conferem a fatores biológicos a primazia para o desencadeamento da depressão, entretanto, outros profissionais divergem desse ponto de vista, e atribuem maior peso no desencadeamento da doença a fatores psicossociais. Maria Silvia Bolguese, psicanalista membro do Instituto Sedes Sapiens, acredita que “interessa ao psicanalista compreender a reação depressiva como reveladora de um mal-estar do sujeito diante da vida, das condições internas e externas para estruturar e viabilizar a sua vida”. Essa postura confere a subjetividade (suas vivencias e história) um lugar de importância na instalação da doença e na forma com que a pessoa vai lidar com ela. A Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP) acredita que 9% dos brasileiros sofrem com a depressão. Um problema grave, também, é a desinformação e a falta de políticas públicas preventivas, e de esclarecimento da doença, da mesma maneira como a que foi feita com as DSTs, gripes, etc. A rede de cuidados primários, no Brasil, deixa a desejar. Segundo a Anvisa, entre os anos de 2004 e 2008 o faturamento das industrias farmacêuticas aumentou 65% com a venda dos antidepressivos. O uso indevido dos medicamentos, segundo Luiz Alberto Hetem, da Associação Brasileira de Psiquiatria, é um sintoma contemporâneo que mostra a “medicalização do sofrimento”, pois, “as pessoas não aceitam mais ficar tristes, ter dor, passar momentos de angústia”, e os remédios são uma forma se “combater as emoções normais”. Vale destacar que apenas 1/3 dos indivíduos com depressão busca tratamento. Como observamos, a depressão é uma doença, não é uma tristeza corriqueira que dá e passa. Embora essa doença crie para a pessoa um cenário apocalíptico, como se não houvesse uma saída possível, como se fosse o fim, não é o fim, existe tratamento. O termo “cliente” quer dizer “aquele que se inclina” para receber ajuda. Essa inclinação não tem nada haver com submissão ou rebaixamento, antes, é um ato de coragem por parte do indivíduo, mostra o poder da sua humanidade e, é uma humildade saudável, benigna que também pode ser chamada de “amor”.
Renata Bomfim


[1]Florbela Espanca, Livro de Mágoas(1919).

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