sábado, 11 de abril de 2015

ACOLHER E CUIDAR DA PESSOA COM DEPENDÊNCIA QUÍMICA (DRA. RENATA BOMFIM)

A questão da drogadicção respondeu, durante muito tempo, ao paradigma dualista cartesiano, que dividiu mente e corpo colocando-os como unidades que funcionam separadamente. Essa dicotomia perpassou, e infelizmente ainda subsiste, em variados campos do saber, especialmente dos relacionados à saúde. Uma breve visada histórica nos permitiu ver que o uso de substâncias psicoativas se perde no tempo, essa é, também, uma prática que responde a diversos interesses e motivações. A variação do uso das SPA, sempre variaram de acordo com a cultura, a religiões, a concepção de medicina e cuidado, de prazer, entretanto, a concepção de dependência química emergiu na modernidade, assim como a noção de “vício” que, segundo o texto Álcool e outras drogas: da coersão à coesão, vincula-se irremediavelmente ao “mal estar da civilização contemporânea”, que caracteriza

uma época mercantil e industrial capitalista, na qual a compulsividade se tornou a regra, com uma incitação ao consumo excessivo, de drogas, de alimentos e de outras condutas passíveis de excessos, como o jogo, o uso de TV e computadores e até mesmo o uso obsessivo de celulares, por meio da promoção sistemática do consumismo pela propaganda. O resultado é uma crise civilizatória, produzindo comportamentos aditivos (que criam dependência) em relação a objetos e bens de consumo (2014, p. 26).
      
Como afirmei anteriormente, o campo da dependência química é complexo, demandando, portanto, ações compartilhadas geradas a partir de variados campos do saber humano. Durante muito tempo a questão da drogadicção respondeu ao paradigma dualista cartesiano que dividiu mente e corpo, colocando-os como unidades que funcionam separadamente. Essa dicotomia perpassou marcou, especialmente, os serviços relacionados à saúde. Se por um lado, a contemporaneidade produz comportamentos aditivos, por outro, as reflexões geradas a partir de múltiplas experiências criticam essa racionalidade e ensaiam movimentos de mudança. A ideia de saúde se ampliou, hoje ela é vista pela Organização Mundial de Saúde (OMS) como um estado de equilíbrio Biopsicossocial. 

As equipes profissionais têm reconhecido a importância das abordagens que consideram o ser humano na sua totalidade, e buscado articular ações que inter-relacionem as partes psíquica, física, social e espiritual, dos usuários dos serviços de saúde, propiciando situações de cuidado que os respeite na sua integridade e cidadania. Essas mudanças já podem ser sentidas, e os profissionais que se empenham em construir esse cuidado que se concretiza através de redes, estão atentos para que os serviços promovam a pessoa e não a doença, bem como, para que estigmas e preconceitos não sejam perpetuados. A nova forma de acolhimento e cuidado para o qual caminhamos, lançam mãos de variados recursos para que fenômenos humanos como a angústia, a depressão, o sentimento de solidão e desamparo, a loucura, e as doenças psicossomáticas, se tornem um dizer (em variadas linguagens), direcionado à saúde e não a doença.

Acreditamos que as oficinas terapêuticas podem integrar essas ações terapêuticas de cuidado, contribuindo para com o tratamento das pessoas com dependência química. Essa posição é corroborada pela SENAD que, no volume quinto do Sistema para detecção do uso abusivo e dependência de substâncias psicoativas: encaminhamento, intervenção breve, reinserção social e acompanhamento/ SUPERA (2011, p. 9) diz:

A capacidade de utilizar várias técnicas combinadas e uma boa dose de criatividade são fundamentais para o correto atendimento destes pacientes (dependentes de drogas), além de um conhecimento teórico sólido. [Dessa maneira, as intervenções terapêuticas visam] modificar pensamentos, sentimentos e comportamentos-problemas, criando um novo entendimento dos pensamentos e sensações responsável pela dificuldade ou problema observado. O clima de apoio e respeito permite ao paciente executar, com a participação deste, as mudanças necessárias para um reequilíbrio de sua vida sem a necessidade de utilizar drogas (2011-b, p. 10).
                                                 
Nas práxis das oficinas terapêuticas, variadas técnicas contribuem para o entendimento dos processos criativos e motivacionais dos participantes. Assim como bem destacaram Miller e Rollnick (2011, p. XII) na obra Entrevista Motivacional, no campo terapêutico “nada funciona para todo mundo”, é por isso que diferentes estratégias contribuem para com a adesão do paciente ao tratamento.
Dra. Renata Bomfim

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Oficina de Arteterapia no curso de saúde coletiva da UFES, no Hucam (prof. Dr.ª Renata Bomfim)

Realizamos uma intervenção criativa junto aos alunos do curso de Saúde coletiva da UFES , a  convite da professora Dr.ª Marluce  Mechelli ...