segunda-feira, 19 de agosto de 2019

Arteterapia e saúde mental: a importância das oficinas terapêuticas (Dr.ª Renata Bomfim)




“Todo mundo quer entender a pintura. Por que as pessoas não tentam entender o canto dos pássaros? Por que gostam de uma noite, uma flor, tudo o que cerca o homem, sem tentar entender essas coisas? Ao passo que quando se trata da pintura ...” (Picasso, 1935)

Esta análise versa sobre a arte como uma expressão subjetiva e seu emprego no tratamento dos transtornos mentais. Fala, brevemente, da experiência e proposta da arteterapia no Programa CDSM, projeto da UFES que integrei entre os anos de 1999 e 2006.

Ansioso por aplacar sua angústia frente à complexidade do mundo e sua inserção nele, o homem busca criar definições para tudo, e com a arte não seria diferente.
Acredita-se que a arte não deveria ser definida, visto que definir significa dar fim, esgotar. Parece-me melhor a ideia de refletir, especular, flectir e, a partir desta inclinação, observar mais de perto as peculiaridades e empregos do termo. A arte se oferece como um espelho multifacetado onde o homem pode se perceber e ver suas experiências refletidas. Viva, apaixonada, a arte não compete nem com a ciência e nem com a razão. Ela só pode ser explicada por ela mesma e na sua complexidade ela se realiza, sustenta e se abre para o social.

É um desafio trabalhar em saúde mental. Ao mesmo tempo que é instigante o contato com os pacientes é também um privilégio e as oficinas terapêuticas, apresentam-se originais e, especialmente, inusitadas.

A interação com a equipe faz valer o trabalho e renova as forças, muitas vezes tão gastas pela falta de recursos, de apoio e pela burocracia.
O Programa CDSM há trinta anos se inclina sobre a questão da  loucura, pesquisa-ação que ensina a seus participantes a não recuar diante dela e a investir no resgate social do indivíduo.

O enlouquecer é da condição humana, sendo que o desafio maior é lidar com pré-conceitos e estereótipos que retratam o desconhecimento sobre o assunto e a manutenção de uma determinada ideologia dominante. A arte é uma forma de manifestação do humano, e desde os primórdios da cultura, este interage com a natureza plasmando a matéria e comunicando sua subjetividade.

É sabido que, nos primórdios da cultura, o homem registrou nas cavernas cenas do seu cotidiano, seus símbolos, seus deuses e demônios e estas manifestações nos comunicam ainda hoje, cerca de trinta e cinco mil anos depois, sobre a forma da sua existência naquela época. Os gregos já utilizavam a expressão pelas artes nos seus processos de cura. Mas a arteterapia, instituída como tratamento terapêutico, surgiu há cinquenta anos, na Inglaterra e nos Estados Unidos.

Em 1946, a psiquiatra alagoana Drª Nise da Silveira, iniciou um trabalho pioneiro no Brasil, no Hospital Psiquiátrico Pedro II, no Rio de Janeiro. Ela inseriu, na sessão de terapia ocupacional do hospital, técnicas artísticas como pintura, modelagem e xilogravura, chamando esta experiência de “Emoção de Lidar”. Essa ação humanística e inovadora da Dr.ª Nise da Silveira atestou que o paciente psiquiátrico não era afetivamente embotado, ao contrário, era capaz de produzir e de criar, revelando o seu mundo psíquico, o que produzia melhoras no seu estado geral.

Acerca desta experiência, Mário Pedrosa (1947), renomado crítico de arte, escreveu: ”Uma das funções mais poderosas da Arte, descoberta da psicologia moderna, é a revelação do inconsciente, e este é tão misterioso no normal como no chamado anormal”.

A experiência aqui retratada iniciou pelo ingresso desta autora no Programa de Extensão Cada Doido Com Sua Mania, da UFES. Ela proporcionou o primeiro contato ainda como estudante, com o universo da saúde mental na Oficina Terapêutica de Pintura do CAPS – Ilha de Santa Maria, resultado de um convênio estabelecido entre a Pró-Reitoria de Extensão da UFES e Secretaria Municipal de Saúde de Vitória/ES. Esta experiência foi decisiva na nossa escolha e formação profissional, mudando o seu rumo.

O uso terapêutico da arte tem se difundido em larga escala no Brasil e no mundo. Na arteterapia os materiais plásticos atuam como veículos facilitadores da expressão humana. Neste contexto, o “fazer” possibilita a expressão do não verbalizável. Através da arteterapia o indivíduo tem a possibilidade de criar, produzir e lançar um olhar sobre esta produção, consequentemente, esta prática auxilia na reestruturação da sua subjetividade.

No espaço arte-terapêutico prioriza-se a expressão livre e espontânea e o participante desta oficina tem recebe auxilio técnico, caso o solicite ou sinta necessidade. O prioritário não é a técnica, e sim, a expressão e produção subjetivas. A técnica pode comparecer quando solicitada pelo participante ou, se necessária, para execução de um trabalho específico, não sendo priorizadas questões de ordem estética. A arte contém uma linguagem universal e propicia um canal singular de expressão dos afetos, fantasias e sonhos humanos.

Criar para o ser humano é uma necessidade. Dessa forma ele comunica acerca do potencial de uma subjetividade e vivencia a sensação de estar contido num espaço e, de ter outro espaço contido dentro de si. Suas criações revelam suas experiências como indivíduo diante de propostas e valores existentes dentro de sua sociedade. Através dos materiais plásticos começam a surgir possibilitando que os "não ditos" se expressem simbolicamente e que estes conteúdos possam ser integrados pela consciência.

Para que o indivíduo se beneficie terapeuticamente com a arte ele não precisa ter “habilidades artísticas”, mas pode ser acolhido numa proposta terapêutica.

Dr.ª Renata Bomfim



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