A terapeuta


Eu sou capixaba, nascida e criada em Vitória, capital do ES. Realizei uma trajetória singular no campo da saúde mental, uma escolha profissional feita cedo, ainda na graduação, e alinhada com o meu desejo. Esse percurso transdisciplinar tem passos marcados nos campos da arte, da psicologia, das letras e da educação ambiental. 

Em 1999, enquanto aluna de artes plásticas na Universidade Federal do Espírito Santo, empreendi uma viagem, que se mostraria ser sem volta, pelos campos da saúde mental. Por meio do Projeto de extensão da UFES, Cada Doido com Sua Mania (CDSM), do qual participei até 2007, fui estagiar na Oficina Terapêutica de Pintura do Centro de Atenção Psicossocial Ilha de Santa Maria. O CAPS Ilha foi o primeiro Centro de Atenção Psicossocial do Estado do Espírito Santo. Eu voltaria ao CAPS em 2003 como coordenadora dessa mesma oficina. 

Depois de formada, participei da estruturação de outros importantes serviços de saúde mental no meu Estado. Além do CAPS-Ilha, também participei da estruturação do primeiro Ambulatório em Saúde Mental para crianças e adolescentes, no HUCAM (Hospital Universitário Cassiano Antônio Moraes), em 2003, e do Centro de Atenção Continuada à Infância, Adolescência e Adulto (CACIA), situado no campus da Universidade Federal e que trabalhou em parceria com a Secretaria Estadual de Saúde (SESA), recebendo demanda do Hospital Infantil Nossa Senhora da Glória (HINSG), em 2004. Esse foi um período de efervescência no movimento antimanicomial e foi então que tomei contato com a clínica da depressão, e passei a trabalhar com pacientes encaminhados pelo Hospital infantil por suspeita de tentativa de suicídio. Sinto-me feliz e honrada de fazer parte dessa história e de ter participado ativamente dessa luta em um momento crucial no qual os manicômios eram erradicados no Brasil e novas formas de tratamento para os portadores de transtorno mental grave eram idealizados. Foi nesse período, mais especificamente em 2003, que decidi empreender uma busca pessoal, despertada pela fascinação que sentia pelos estudos da linguagem, que me levaram a abrir meu primeiro consultório particular de saúde mental na capital capixaba.

A formação como arteterapeuta realizada no Rio de Janeiro, enriquecido pelo estágio realizado no antológico Museu de Imagens do Inconsciente, onde a DR.ª Nise da Silveira realizou a sua obra, e as formações em Psicologia Analítica Jungueana e Psicossomática foram dando forma a uma práxis pessoal, que continua em permanente processo de revisão e aprimoramento.

 Dessas experiências nasceram vários projetos interessantes como o GRUPO DE ESTUDOS NISE DA SILVEIRA, que coordenei por vários ano para estudantes da UFES, no Programa CDSM, a criação do grupo de contação de histórias Tecelãs da Palavra, entre outros. 
  Esse breve relato, não envolve diretamente a minha produção como artista plástica, que era voltada para o mosaico contemporâneo, e nem o fazer poético, como escritora. Em 2010 concluí o doutorado em letras na UFES feita em parceria com a Universidade de Évora, em Portugal. 

A formação como instrutora de Yoga tradicional indiano (Hatha Yoga e Raja Yoga) trouxe importantes contribuições à minha prática como a possibilidade de trabalhar com os clientes a meditação (Mindfulness), o relaxamento profundo, o realinhamento postural por meio dos ásanas e variados trabalhos respiratórios que ajudam na administração do estresse. Dessa forma, temos hoje a possibilidade de construir junto com o  cliente um plano terapêutico singular e individualizado que vai ao encontro de suas necessidades.

O ingresso no campo da educação ambiental surgiu com o convite para realizar uma vivência no MOSTEIRO ZEN BUDISTA MORRO DA VARGEM, situado em Ibiraçu, em 2008. O Mosteiro Zen é um Polo de educação ambiental reconhecido pela UNESCO como um Posto Avançado da Reserva da Biosfera da Mata Atlântica. No Mosteiro desenvolvi projetos e programas socioambientais e de qualidade de vida para diferentes grupos, entre eles o ZENZINHO, que atende crianças da rede pública capixaba, sensibilizando os jovens para a importância de uma vida sustentável e trabalhando no enfrentamento ao uso e abuso de drogas por meio de atividades lúdicas. O programa COMPAZ: a ética policial e a vivência socioambiental, por sua vez, oferece formação continuada (sensibilização para a questão ambiental, ética e direitos humanos) para as polícias do Espírito Santo (Militar, Civil, Ambiental e Bombeiros). Atuei, também, na coordenação do ZEN MANAGEMENT, programa que trabalhava a liderança horizontalizada com gestores de empresas públicas e privadas e profissionais liberais.

Em 2014 passei a integrar a equipe do Projeto Terapêutico e Social do Centro de Acolhimento para Pessoas com Dependência Química. Tive a alegria de acompanhar os primeiros passos desse programa em 2013. Assim que finalizei as pesquisas de doutorado no exterior e retornei ao Brasil, passei a integrar o Programa do Governo Estadual. Assim que ingressei na equipe do Projeto Terapêutico e Social ficou ao meu encargo trabalhar nas Comunidades terapêuticas (CTs) um importante serviço, praticamente inexistente e previsto pela ANVISA (RDC 29/2011): as atividades lúdicas terapêuticas. Esse trabalho abarcou a estruturação e orientação de ações e projetos culturais, artísticos e educacionais para os acolhidos, e de variadas oficinas terapêuticas e de geração de renda nas CTs. Nesse serviço, trabalhei diretamente com os acolhidos, bem como, com as equipes multiprofissionais das CTs, do Centro de Acolhimentos para Pessoas com Dependência Química, e de parceiros (da iniciativa pública e privada) que se engajaram nos projetos propostos. 

Em 2016, ingressei como docente no Centro de Letras da UFES, passando a dedicar um tempo maior as aulas e a pesquisa, entretanto, o amor pela clínica não permitiu que eu me afastasse completamente do consultório particular ESTARTE (Espaço terapêutico Arte), então, passei a atender em alguns dias durante a semana. 

Atualmente, tenho dedicado tempo integral ao consultório e a outras ações socioculturais e ambientais em regime de voluntariado, como a presidência da Academia Feminina Espírito-santense de Letras, a Diretoria técnica da Associação Capixaba do Patrimônio Natural e o posto titular no Comitê Integrado de Apoio às RPPNs, pela ACPN e RPPN Reluz.   

Sou agradecida por esse percurso de vida e de trabalho que continua pulsante e em evolução. Trabalhar com saúde mental, especialmente na clínica  ou em empresas, me dá muita satisfação, amo esse trabalho, pois, observo a oportunidade de manter um diálogo profícuo com várias pessoas e profissionais e também aprender muito. Esse percurso, nada linear (transdisciplinar), fez nascer  o desejo de compartilhar essas experiências, e é isso o que tenho feito. 
Renata Bomfim

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